Por que Odisseu não foi transformado em animal por Circe? A resposta pode estar no Canto I da Divina Comédia.

Alegoria da condição humana em Homero e Dante

por Ruth K. Freitas

2/6/20259 min read

O episódio de Circe na Odisseia de Homero e a aparição das três feras no primeiro canto da Commedia de Dante Alighieri figuram entre as mais importantes representações alegóricas da tradição literária ocidental acerca da degradação moral do homem. Na adaptação de Christopher Nolan, muitos detalhes, bem como da ausência dos mesmos, só poderiam ser notados por leitores que já conheciam a epopeia de Homero. Um destes detalhes se dá na ilha de CIrce, feiticeira que transforma os companheiros de Odisseu em porcos. Todavia, Odisseu não é transformado. Por quê? Embora separados por quase dois milênios e inseridos em horizontes culturais distintos, ambos os textos articulam uma mesma problemática antropológica: a tensão entre razão e apetites. Proponho uma breve leitura comparativa entre esses dois episódios, tomando como eixo interpretativo as Esposizioni sopra la Comedia de Giovanni Boccaccio, texto este que estou traduzindo de modo inédito para a língua portuguesa. Defendo que a transformação dos companheiros de Odisseu em animais e a função impeditiva exercida pelas três feras dantescas constituem manifestações literárias de um mesmo paradigma moral: a perda da racionalidade provocada pela submissão às paixões desordenadas. Boccaccio fornece uma chave hermenêutica privilegiada para compreender essa continuidade, ao interpretar a onça, o leão e a loba como figuras da carne, do mundo e do diabo. Sob essa perspectiva, Circe aproxima-se particularmente da onça, uma vez que ambas operam pela sedução e pelos prazeres sensíveis, conduzindo o homem à degradação espiritual.

Poucas imagens atravessaram a história da literatura ocidental com tanta persistência quanto a da transformação do homem em animal. Da epopeia homérica à escatologia medieval, a animalidade constitui uma linguagem simbólica por meio da qual diferentes culturas procuraram representar aquilo que entendiam como a perda da verdadeira condição humana. Em vez de constituir mera fantasia mitológica ou recurso narrativo destinado ao maravilhamento do leitor, a metamorfose animal frequentemente assume um caráter antropológico, moral e filosófico, tornando-se expressão visível de uma corrupção interior. Na tradição grega, esse motivo alcança uma de suas formulações mais célebres no décimo canto da Odisseia, quando Circe transforma os companheiros de Odisseu em porcos após seduzi-los por meio de um banquete encantado. A cena, aparentemente fantástica, contém uma observação que desde a Antiguidade chamou a atenção dos comentadores: embora assumam corpos animais, os companheiros preservam integralmente a consciência humana. Homero observa que eles "mantinham a inteligência tal como antes" (νόος ἔμπεδος ἦεν), indicando que a metamorfose representa sua incapacidade de governar os apetites corporais e não a destruição da racionalidade.

Essa distinção revela-se decisiva para a compreensão filosófica do episódio. O homem não deixa de possuir razão; torna-se incapaz de ordenar sua vida segundo ela. A animalização representa, portanto, a inversão da hierarquia própria da alma, na qual os desejos passam a dominar aquilo que deveria governá-los. Trata-se de um tema profundamente enraizado na filosofia clássica, especialmente na tradição platônica e aristotélica, para a qual a excelência humana consiste precisamente no governo racional das paixões.

Séculos mais tarde, Dante Alighieri retoma essa mesma problemática logo na abertura da Commedia. Perdido na "selva escura", o peregrino tenta ascender à colina iluminada, mas encontra sucessivamente três animais, sendo elas a lonza, leia-se aqui, o leopardo, o leão e a loba, que bloqueiam completamente sua subida. Diferentemente de Circe, essas feras não transformam Dante fisicamente; entretanto, exercem função simbólica semelhante. Elas representam forças morais que impedem o homem de recuperar a ordem perdida de sua existência.

A tradição exegética medieval produziu múltiplas interpretações acerca dessas três figuras. Entre elas, destaca-se a leitura desenvolvida por Giovanni Boccaccio nas Esposizioni sopra la Comedia di Dante, obra que ocupa posição singular na história da recepção dantesca. Ao identificar a onça com a carne, o leão com o mundo e a loba com o diabo, Boccaccio desloca o episódio para o interior da antropologia cristã, relacionando as feras aos três grandes inimigos espirituais tradicionalmente descritos pela patrística.

"Afirma o autor, portanto que, tendo resolvido na meditação supracitada deixar o vale escuro e ascender à montanha luminosa e clara, isto é, à doutrina apostólica e evangélica, três feras impediram de sair: um leopardo, ou pantera, como deveria ser chamado, um leão e uma loba. Embora esses animais pudessem ser associados a muitos vícios diferentes, aqui, segundo o consenso de todos, parece que se deve entender o seguinte: o leopardo, o vício da luxúria; o leão, o vício do orgulho; e a loba, o vício da avareza. E, como não pretendo me afastar da opinião geral, demonstrarei como esses animais podem ser associados aos vícios supracitados; e, então, se o autor julga correto atribuí-los a si mesmo, fica ao critério de cada um. [...]

Há, portanto, no leopardo, entre muitas outras coisas, quatro propriedades singulares. Ele é, primeiramente, muitíssimo leve, tanto ou até mais que, qualquer outro quadrúpede; em seguida, sua pele é lambida, lisa e manchada por inúmeras pintas; além disso, aprecia maravilhosamente o sangue do bode; por último, é por natureza um animal extremamente cruel. Essas quatro propriedades, segundo meu juízo, estão maravilhosamente conformes ao vício da carne; pois que a sua leveza serve para demonstrar a leviandade das almas daquelas pessoas que, ou pelo apetite ou de fato, se enredam nesse vício; de modo que elas ora ardem inteiramente, acesas pelo fervente desejo da coisa amada, e ora são mais frias que a neve, bastando que cesse a esperança da coisa amada; e quase num mesmo momento riem e cantam, e lamentam-se e choram, e assim ensoberbecem-se de súbito e subitamente se tornam humildes; ora, perturbadas, esbravejam e gritam, e logo em seguida, apaziguadas, lisonjeiam. [...] "Bem, então, pode-se dizer que essa besta é a concupiscência carnal que, lisonjeando até a morte, com todos os prazeres mortais que oferece quando encontra a sensualidade humana, sempre que a alma, reconhecendo sua tristeza, deseja se afastar dela e retornar às coisas divinas, se esforça com considerável força para retê-la, não desviando o olhar, como que a dizer: recordando todas as pessoas que já foram amadas, todas as ações, todas as palavras que já foram agradáveis; relembrando-lhe com um olhar piedoso as lágrimas, a fé prometida, os votos quebrados; persuadindo-o com falsas demonstrações de que reserva essa castidade, essa resolução para a velhice e não quer perder agora o que jamais poderá recuperar. Com esses e muitos outros consolos semelhantes, no IV volume da Eneida, Virgílio mostra que Dido se esforçou para deter Eneias e afastá-lo de sua gloriosa empreitada; assim como já os haviam desviado do bom começo para o doloroso fim da perdição eterna." [...]

"A segunda besta, a qual foi encontrado por nosso autor, foi um leão, o qual disse ser entendido pela soberba, ao qual conforme ele se adapta, disso mostrarão algumas das suas propriedades, àquelas do vício depois equiparadas. É o leão não somente audaz, mas também temerário; além disso, é voraz e iminente, e é ainda altíssono no seu rugir, em tanto que ele espanta as bestas circunvizinhas que o ouvem: e, embora assaz mais disso, estas três bastam para mostrar que ele entende otimamente o vício da soberba. Disse ainda que, o leão era voraz e iminente: coisa esta que é quanto mais pode ser própria do soberbo, ao qual, ainda que rico seja, não sofre o ânimo ser contente com o que é seu; mas continuamente oprime e avilta os menores, rouba os bens, ocupa as possessões, bate e fere os que resistem, e, em cada ato seu, é violento e cheio de toda nequícia; e, em toda coisa, quer sobrestar aos outros, estimando que, por isso, o seu status se torne maior, seja mais temido e considerado de alma mais excelente. Coisa esta que conduziu Jugurta, rei da Numídia, a ser lançado da rocha Tarpeia no Tibre; e Jezabel a ser empurrada da torre e, por cavalos, por carros e por homens, pisoteada, e a tornar-se lama e esterco da vinha de Nabote; e Antíoco, rei da Ásia e da Síria, a ser pelos romanos relegado para além do monte Tauro." [...]

"A terceira besta, que apareceu diante do autor foi uma loba, animal feroz e horrível, o qual, como eu disse antes, é entendido pela avareza; e como ela se conforme com esta, como fizemos nas outras duas, o mostrará: tomando algumas de suas propriedades e conformando-as com as do vício. Coisa manifesta é a loba ser animal famélico[1] e sempre bramoso; além disso, quando vem aquele tempo no qual ela é apta a dever conceber, tendo muitos lobos atrás de si continuamente, a aquele que lhe parece mais mísero de todos, desprezados os outros, se concede; e, além disso, o lobo é animal suspeitíssimo, continuamente se olha ao redor e quase em parte alguma se torna seguro, creio que acusado pela própria consciência.
Digo ainda que, a loba é um animal famélico e bramoso, e que o homem avarento também o é; pois embora o homem avarento tenha aquilo que precisa, honestamente adquirido e da maneira que quiser, talvez com muita solicitude e correndo grande perigo, não se contenta com isso; mas, aceso por maior cobiça e estimulado por nova sede, em cada um de seus exercícios mostra-se mais faminto do que nunca; e, para satisfazer a essa fome insaciável, não há perigo algum, desonestidade alguma, falsidade alguma ou outra nequícia em que ele não se metesse." [...]

"E, com esta e com semelhantes demonstrações, que o miserável faz por indução e obra do demônio, o qual sempre se opõe, quanto pode, à nossa salvação, muitas vezes somos desviados; e, tendo em pouco preço a graça de Deus, recaímos em nossa miséria e, por conseguinte, ruímos na perdição eterna. Nem mesmo a idade avançada nos induz jamais a guardar-nos disso; porque, embora os outros vícios envelheçam com os homens, somente a avareza rejuvenesce. E disso nos dão testemunho certíssimo Tântalo, Midas e Crasso[1], os quais, morrendo, antes abandonaram a ela do que ela, enquanto viviam, fosse por eles abandonada.

Puderam, pois, estes vícios serem, para o autor em particular, causa de resistência e de medo. Mas que diremos nós, em geral, que estes três animais signifiquem para muitos outros, que, apartando-se do vício, querem retornar à virtude? Nenhuma outra coisa me ocorre à qual estas três feras possam melhor adaptar-se do que aquilo que é comum a todos: os nossos três principais inimigos, isto é, a carne, o mundo e o diabo; e entender pela carne a onça, pelo mundo o leão e pelo diabo a loba. Estes três continuamente vigiam e permanecem atentos à nossa condenação. A carne nos lisonjeia com a doçura dos deleites temporais, sob os quais escondeu o veneno infernal; o qual nós, assim como o peixe toma o anzol com a isca, quase sempre tomamos com os deleites; e, por ele envenenados, miseravelmente morremos. Por essa razão, o nosso Salvador nos ensina e nos exorta a estar atentos para não nos deixarmos enganar, quando diz:
«Vigilate et orate: spiritus quidem promptus, caro autem infirma»;

E São Paulo similarmente nos alerta e nos torna cautelosos, quando disse:
«Spiritus concupiscit adversus carnem, et caro adversus spiritum»"

Todos estes trechos são a síntese da interpretação que oferece um ponto de convergência particularmente fecundo com o episódio homérico de Circe. A carne, afirma Boccaccio, "lisonjeia-nos pela doçura dos prazeres temporais, sob os quais esconde o veneno infernal". A imagem é notavelmente próxima da estratégia empregada por Circe. Antes da metamorfose, não há violência, ameaça ou coerção. Há hospitalidade, vinho, alimento e prazer. A degradação não se apresenta sob a aparência do mal, mas sob a forma do deleite.

Essa aproximação permite identificar uma continuidade simbólica raramente explorada de maneira sistemática pelos estudos comparativos entre Homero e Dante. Embora pertençam a sistemas religiosos distintos, ambos os autores compreendem a corrupção moral como um processo de rebaixamento da condição humana ao nível da animalidade. O homem deixa de viver segundo sua natureza racional para tornar-se escravo das paixões inferiores.

Nesse contexto, a figura de Odisseu adquire relevância especial. Diferentemente de seus companheiros, ele não é transformado por Circe. A narrativa atribui essa resistência ao auxílio de Hermes, que lhe entrega a planta moly, tornando-o imune ao feitiço. Todavia, uma leitura alegórica revela que essa imunidade não decorre exclusivamente de um elemento mágico. Odisseu permanece homem porque alia o auxílio divino ao exercício prudencial da razão. Sua vitória resulta tanto da intervenção superior quanto da obediência inteligente às instruções recebidas. Contudo, a intervenção divina em favor de Odisseu, não foi apresentada no longa de Nolan.

Situação análoga ocorre na Commedia. Dante igualmente fracassa quando tenta superar as feras por suas próprias forças. Sua salvação inicia-se apenas com a chegada de Virgílio, cuja função ultrapassa largamente a de um simples acompanhante. O poeta latino representa a razão iluminada, capaz de conduzir o homem para fora da desordem moral, embora insuficiente para levá-lo sozinho até a visão de Deus.

Em ambos os poemas, portanto, a restauração da humanidade exige simultaneamente auxílio transcendente e cooperação racional.

Angelica Kauffmann's painting of Circe enticing Odysseus, 1786